Recomposição das equipes, condições de trabalho e atuação da fundação estiveram entre os temas do debate após a prestação de contas do SUS.
As filas e o acesso aos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) de Curitiba estiveram entre os principais temas do debate realizado nesta terça-feira (29), na Câmara Municipal de Curitiba (CMC), após a prestação de contas da Secretaria Municipal da Saúde referente ao segundo quadrimestre de 2026. Vereadores questionaram a gestão municipal sobre o tempo de espera nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), consultas com especialistas, cirurgias eletivas e atendimento em saúde mental, além das estratégias adotadas para ampliar a capacidade da rede.
Ao responder aos questionamentos, a secretária municipal da Saúde, Tatiane Filipak, afirmou que a redução das filas da atenção especializada é uma das frentes de atuação da pasta. Segundo ela, a atual gestão começou com mais de 200 mil pacientes aguardando atendimento especializado, dos quais 47 mil estavam na fila da oftalmologia. A gestora disse que houve redução do tempo de espera em algumas áreas e citou a oftalmologia, cujo atendimento, segundo ela, ocorre atualmente entre cinco e sete dias em média. Filipak também apontou o absenteísmo, quando o paciente não comparece ao procedimento agendado, como um dos desafios para a oferta de consultas especializadas. Conforme a secretária, em algumas especialidades o índice varia entre 30% e 40%. “De cada dez consultas que eu agendo, três pacientes não aparecem, três pacientes deixam de ser atendidos”, exemplificou. Diferentemente da atenção primária, explicou, nem sempre é possível preencher imediatamente a vaga aberta pela ausência do paciente, porque parte dos atendimentos especializados é realizada em hospitais e outros prestadores da rede. Tempo de espera nas UPAs entra no debate
A espera por atendimento nas UPAs de Curitiba também foi questionada durante a audiência. Entre as cobranças feitas pelos vereadores estavam a apresentação de dados sobre as filas e as medidas previstas para reduzi-las, além do número de pacientes que permaneceram por mais de 24 horas nas unidades aguardando transferência para leitos hospitalares. A gestora do SUS de Curitiba explicou que as UPAs funcionam com atendimento por classificação de risco, e não por ordem de chegada. Conforme a secretária, a rede utiliza o Protocolo de Manchester, que estabelece prioridades de acordo com a gravidade do quadro clínico. Por isso, pacientes de menor complexidade podem ter espera maior quando há concentração de casos mais graves. Ela afirmou que existem períodos nos quais uma unidade recebe simultaneamente 50 ou 60 pacientes, produzindo picos no tempo de espera mesmo com diferentes equipes médicas em atendimento. Uma das estratégias apresentadas pela SMS para diminuir a procura das UPAs por casos de menor complexidade é a expansão dos consultórios digitais nas unidades de saúde. Segundo Filipak, os primeiros resultados indicam média de 40 atendimentos em um período de 12 horas por consultório. A projeção da pasta é que a expansão da estratégia para as 109 unidades de saúde existentes, e posteriormente para 115, possa acrescentar mais de 4 mil atendimentos por dia à capacidade da atenção primária.
A secretária sustentou que o atendimento digital será incorporado sem substituir a agenda regular da atenção primária, que inclui o acompanhamento de gestantes e de pacientes com doenças crônicas, entre outras atribuições das equipes. A intenção, segundo ela, é absorver demandas espontâneas de menor complexidade nas unidades próximas à residência do usuário, reduzindo deslocamentos até as UPAs.
Cirurgias eletivas e espera por leitos também são questionadas
O debate avançou para a espera por cirurgias eletivas e internações hospitalares. Vereadores pediram informações sobre quantos pacientes aguardam procedimentos cirúrgicos pelo SUS e há quanto tempo, além da quantidade de pessoas que permanecem nas UPAs à espera de vagas em hospitais. Em resposta, Filipak afirmou que o Município não mantém, atualmente, uma fila externa de cirurgias eletivas, mas reconheceu a existência de filas internas em alguns hospitais.
Segundo a secretária da Saúde, a pasta está avaliando individualmente esses prestadores para ampliar a capacidade. “A fila não é do hospital, ela é nossa, nós somos cientes disso”, afirmou. A ortopedia foi citada como uma das áreas que concentravam maior demanda e maior tempo de espera e que passaram a receber reforço na oferta de procedimentos. Quanto aos pacientes que permanecem nas UPAs antes de uma transferência hospitalar, a gestora explicou que há uma etapa de avaliação e definição diagnóstica antes do encaminhamento pela Central de Leitos. Conforme a necessidade, são realizados exames e avaliações especializadas para definir o perfil do leito hospitalar adequado. A Secretaria também apontou a atenção domiciliar como alternativa para casos em que o quadro clínico permite a continuidade dos cuidados fora do hospital.
Saúde mental e atendimento ao autismo
A capacidade da rede de saúde mental de Curitiba também entrou no debate. Os questionamentos abrangeram a demanda de crianças e adolescentes por avaliação e acompanhamento, o tempo de espera e a estrutura destinada às pessoas com transtorno do espectro autista (TEA). Os vereadores tomaram como referência os números apresentados na prestação de contas, que indicaram mais de 4,5 mil usuários acompanhados mensalmente nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e cerca de 1,1 mil pacientes ativos no atendimento relacionado ao TEA. Sobre o autismo, Filipak informou que a quantidade de pacientes inseridos no atendimento passou de 387 para aproximadamente 1,1 mil. Conforme a secretária, a assistência combina estrutura própria e rede credenciada, atualmente formada por oito clínicas, além de ambulatório e acompanhamento realizado na atenção primária.
Em relação à saúde mental infantojuvenil, a gestora afirmou que não há fila para atendimento nos CAPS infantis. Ela também citou a implantação de um novo CAPS infantil no Pinheirinho e a criação de leitos de saúde mental destinados a crianças em Curitiba. Segundo Filipak, antes do credenciamento desses leitos, pacientes que necessitavam de internação eram encaminhados para atendimento fora da capital.
Debate mobilizou 11 vereadoresAo todo, 11 vereadores participaram do debate após a apresentação da prestação de contas da Secretaria Municipal da Saúde, além de Pier Petruzziello (PP), que coordenou a audiência pública. As manifestações trataram de filas e acesso aos serviços do SUS, quadro de profissionais, concursos públicos, condições de trabalho, Fundação Estatal de Atenção à Saúde (Feas), saúde mental, atendimento às pessoas com transtorno do espectro autista (TEA), infraestrutura das unidades e outras demandas da rede municipal. Nesta reportagem, foram contempladas as manifestações de Luciano Carvalho (PP), Mauro Bobato (Pode), Rafaela Lupion (PSD), Matteus Henrique (PT), Camilla Gonda (PSB) e Zezinho Sabará (PSD), reunidas por afinidade temática. Os demais assuntos discutidos durante a audiência pública, especialmente os questionamentos e contrapontos sobre quadro de servidores, concursos públicos e o modelo de gestão da Feas, serão abordados em reportagem específica.